Por isso eu chorei...

Eu estava sensível, eu estava frágil, e um pouco bêbada.

Depois daqueles beijos maldosos que machucaram minha boca,  marcaram meus ombros e pescoço eu me sentia extasiada e leve. E me sentia vazia, de um vazio aliviado, como sempre  me sinto quando tropeço e caio no colo de qualquer um desses homens inescrupulosos e fortes.  Confesso que meu tropeço não passa de uma farsa, como os tombos dos filmes: ensaiados, calculados e intencionais. É meu jeito de me jogar ao meu erro e a sua punição de uma só vez. Por vezes me poupo o trabalho de sofrer conseqüências tardias e imploro por castigos rápidos e afiados. Entrego-me aos dentes.

"Você é engraçada" alguém disse me olhando com cara de espanto e eu fiquei sem entender o porquê. Não vejo graça nesses meus costumes, no entanto troco olhares sorrindo e provoco as situações com brilho nos olhos. Parece que divirto, e me divirto, mas não quero parecer uma palhaça.

 O que eu não quero é parecer alguma coisa, se pudesse andaria nua gritando minhas verdades e a aí todo mundo saberia quem eu sou. Sensível, frágil e um pouco bêbada. Uma menininha tão mimada que gosta que sinceramente lhe contem mentiras, tão mimada que é incapaz de ver e não querer, e que chora quando quer e não tem. Mas mulher doida o suficiente pra ir atrás do que quer, doida o suficiente pra agüentar os castigos, doida o suficiente para pedir por eles.

No tempo em que só a menininha mimada existia alguém deveria ter lhe ensinado alguma lição sobre a vida, a vida deveria ter sido mais dura com ela, e ela entenderia que mulheres doidas não são de fácil convivência. Ou de alguma maneira alguém deveria ter lhe alimentado melhor e quem sabe ela crescesse e não precisasse de boas ou más companhias. Quem sabe hoje não haveria uma menina e uma mulher, mas um ser só que desse conta da bagagem da vida.

Porque a bagagem da vida ficou muito pesada: a menina não consegue carregar e a mulher está com as mãos ocupadas. Então não me venha falar verdades doídas, porque toda dor que posso suportar vem de ações e não de verbos. Não faça tanta questão de me lembrar que não posso viajar sem minha bagagem e que não tem quem possa me ajudar a carrega-la, portanto o previsto é continuar aqui.

Use de todo o cuidado quando for falar comigo mas não faça cerimônias quando for me tocar.

Escrito por Prisioneira às 15h21


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BRASIL , Sul , CURITIBA , SANTO INACIO , Mulher , de 20 a 25 anos , Portuguese

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