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Amiga Dor
"Quanto mais pesadas ficam as coisas, mais leve eu me descubro, como se a plenitude só fosse possível depois da dor, e a confusão fosse a origem de todas as descobertas. E é..."
“Abraçando a dor”, escutei esses dias, e repeti hoje pra alguém. “Abraçando a dor” não só porque ela é o galho que me segura quando estou preste a cair da minha fantástica casinha da árvore das ilusões, e também não só porque ela me remete a vida enquanto único sentimento passível de percepção em certas situações. Mas porque a dor também é amiga, tão amada quanto a melhor das amigas.
A dor amiga deita comigo e lambuza meu rosto com lágrimas antes de dormir. E quando eu acordo ela passa os dedos no meu cabelo embaraçado de sono, assopra de leve a tatuagem na minha nuca e me arrepia. Levanto da cama, com os olhos inchados do choro da madrugada, pensando nela. Ás vezes de tão forte ela solidifica-se, transporta-se do plano sutil e sublime dos sentimentos e se materializa em pequenos cortes, cicatrizes que fazem ver que ela realmente existe, não é uma amiga imaginária.
A dor amiga fica nua comigo e entra junto no meu banho. Só de sacanagem joga água no meu rosto, me provoca, me irrita. Peço que ela vá embora pelo ralo junto com a água e a sujeira porque estou cansada dela. E daí a água lava, lava e lava, mas não a leva. Fico com uma dor limpa que vai passar o resto do dia comigo.
A roupa que eu visto esconde a dor, que apesar de muito minha amiga, me envergonho de apresentar aos amigos.Ela não tem uma aparência agradável, e tem um jeito de falar que não deixa ninguém á vontade: a chamam de estraga-prazeres, e eu que não quero estragar o prazer de ninguém! Ás vezes ela escapa, do mesmo jeito que escapam minhas roupas, mas nunca ao mesmo tempo e nem em circunstâncias idênticas. O fato é que depois de uma noite inteira de bebedeira, ou me fogem as roupas, ou encasqueta de falar a minha dor.
Ela entra no ônibus comigo, e senta no meu colo que é pra não ocupar o lugar de ninguém. Andar de ônibus é muito solitário se você não tem uma amiga dor. E não faz mal que ela vá junto, porque a dor não paga passagem. Aliás, a dor tem sempre bônus de entrada gratuita em qualquer estabelecimento, e passagem garantida para qualquer lugar do mundo. Não há para onde fugir dela, se ela quiser ir com você, ela vai.
Ela caminha comigo e ás vezes esbarra em algum distraído, e se distraí ao esbarrar em conhecidos.
Ah, mas os amigos, esses sabem mesmo como distrair minha amiga. Por vezes na presença deles até me esqueço dela, e ás vezes ela se esquece de mim.
E quando eu acho que ela resolveu juntar sua trouxa pesada e ir embora, ela pousa em outro coração.A conversa que eu tinha com um amigo é interrompida pelas lamentações dela, e ao fitar com atenção os olhos do amigo eu a encontro falando por ele, agindo por ele, bebendo e fumando por ele. Então eu peço que ela abra suas asas acolhedoras e voe para mim novamente. Porque pior do que ter uma amiga como a dor é saber que quem você ama anda na companhia dela.
Quando penso em ir embora ela sobe nas minhas costas e fica muito difícil levantar. A dor não gosta que fiquemos muito tempo a sós, porque sabe que eu me canso dela e ela se cansa de mim. Mas por fim, a convenço que já é tarde, e ela pede que eu a erga no colo, pois está cansada. A carrego de volta para casa como a mãe que carrega o filho adormecido nos braços.
Antes de dormir eu pergunto:
-Dor, quando você vai embora?
-Não vou, sou sua amiga, estarei sempre aqui, e te farei forte.
Ela responde.
Depois ela me conta como eu sou uma pessoa difícil e o quanto ela tem que ser insistente pra que eu entenda alguma coisa. E sempre termina seu discurso assim:
-E mesmo quando você for forte o bastante, ainda estarei por aqui, como pano de fundo de alguma lembrança, e quando você lembrar eu voltarei, que é pra você não esquecer de mim. Menina, eu nunca vou te abandonar!
-Obrigada por estar aqui, obrigada por ser minha amiga. Obrigada por insistir. Então eu, muito grata, abraço a dor. E de novo vou dormir com os olhos encharcados. Agarrada á minha amiga dor.
Escrito por A Ferida às 15h45
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Minha fragilidade exposta além das expressões.
Toda vulnerabilidade nos olhares, nos sentidos...
Nunca mais, eu digo...
É um último abraço pra recomeçar.
Minhas manhas, meus caprichos...
Alto autocontrole, negativas, birras.
Todas as armas engatilhadas
Inconscientes de que o tiro sai pela culatra.
E no fim, se há feitiço,
Vira contra o feiticeiro,
Que não sabe que no caldeirão ferve
Uma poção do amor.
Escrito por A Ferida às 14h53
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resposta
Resposta ( Maysa)
Ninguém pode calar dentro em mim Essa chama que não vai passar É mais forte que eu E não quero dela me afastar Eu não posso explicar como foi E como ela veio E só digo o que penso Só faço o que gosto E aquilo que creio Se alguém não quiser entender E falar, pois que fale Eu não vou me importar com a maldade de quem nada sabe E se alguém interessa saber Sou bem feliz assim Muito mais do que quem já falou ou vai falar de mim
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Escrito por A Ferida às 12h25
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Perdão
Confessou seus medos e seus erros. Jeito estranho o dela de começar uma conversa, como se fosse ele, um mero ouvinte, que pudesse redimir-la e salva-la. Ele pensou nisso mais de uma vez enquanto olhava pra ela.
Ela estava ali, vomitando uma série de erros e mágoas aparentemente desconectadas. A incógnita maior era se aquela conversa levaria á algum lugar. Se havia um objetivo da parte dela em falar sobre sua vida tão abertamente.
Durante mais de uma hora ela falou como se falasse com algum tipo de analista ou padre. Às vezes ela interrompia seu próprio raciocínio e questionava:
-Será que isso é normal?
Ele sem resposta, apenas balançava a cabeça em sinal de dúvida, na verdade ele também gostaria de saber se aquela garota era normal! E ao final de todas as histórias dela, quando pela última vez ela perguntou se ele a achava normal, ele vislumbrou a resposta: “Tanto faz, você é linda!”. Essa frase repetiu-se três vezes em sua cabeça, e com um gaguejo na primeira silaba ele a pronunciou.
Ela continuou em silêncio, esperando algum tipo de continuação pra essa resposta que parecia tão desligada de tudo que ela havia lhe dito. Dez intermináveis segundos de silêncio, fizeram o mundo em volta deles congelar: Ela sabia que ainda havia mais, que havia uma continuação pra essa resposta. E ele, tomado por súbita hipnose não conseguia mover seu olhar para longe do dela. Ah! A continuação da resposta viria! Viria e vinha! Á medida que aproximavam suas faces sem desviar o olhar...
Um beijo concluiu a resposta, e ele se sentiu satisfeito por não ter precisado explicar em palavras o que via nela... Ela... Bem, ela sentiu-se respondida.
Mais tarde, de carona com ele, se dirigiram á casa dela. Ela o convidou para entrar e apesar de ela morar no primeiro andar subiram de elevador.
-Preciso te mostrar uma coisa.
Ela disse ao abrir a porta do apartamento puxando-o pela mão até seu quarto.
-Olha a bagunça do meu quarto!
Ele riu quando ela acendeu a luz. Havia roupa espalhada pelo chão, revistas, pulseiras, brincos sem par, um rabisco de um desenho, e, estranhamente uma cama bem arrumada.
-Você acha normal?
Ela perguntou, esperando ser absolvida do pecado da bagunça do seu quarto da mesma maneira que foi absolvida dos pecados da sua vida com a resposta que recebeu da última vez que fez essa pergunta.
Ele, por sua vez achava que a única coisa anormal ali era a cama bem arrumada. Sabia o que ela esperava, beijou-a. E antes que ela tivesse oportunidade de deitar na cama ele a deitou no chão, em cima das roupas e do desenho.
Pela manhã, quando ele acordou com ela dançando de camiseta e calcinha na porta do quarto, achou normal, e naquele momento entendeu tudo. Sem perceber ele havia dito á ela que ela era normal o suficiente para ser amada. E ali, ainda deitado sobre a bagunça do quanto dela, se deu conta de que nunca mais saberia a sensação de viver uma vida “normal” e percebeu que nem mais assim queria, pois preferiu dormir no chão, sobre a bagunça dela, á dormir naquela estranha e normal cama bem arrumada... Ah sim, ele já havia perdoado os erros dela com seus beijos. Ele já havia passado por cima de toda bagunça. Tanto fazia, ela era linda!E ele a amava.
Ela aproximou-se e beijou-o. Já o absolvendo de todos os erros que ela sabia, ele cometeria ao seu lado.
Escrito por A Ferida às 17h12
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